Artigo | Pandemia e isolamento social – o inesperado

Você já parou para se perguntar sobre o que há de inesperado no momento que estamos vivendo? Quem reflete um pouco sobre essa pergunta é José Leão da Cunha Filho, diretor de Identidade, Missão e Vocação da Província Marista do Brasil Centro-Sul. A pandemia escancarou realidades já vividas e sentidas por grande parte da população, contudo havia uma invisibilidade. Segundo Leão, “o novo coronavírus confundiu nossos saberes, humilhou nossos poderes, expôs nossa impotência e mostrou que não estamos no comando de quase nada”.

Confira abaixo a íntegra do artigo.

Pandemia e isolamento social – o inesperado

Algo que nos distingue de modo especial é a experiência. É ela que nos permite aprender com o que nos ocorre, isto é, experiência é o que escolhemos fazer com o que nos acontece, diz o filósofo e pedagogo espanhol Jorge Larrosa.

A COVID-19, que bateu à nossa porta em março de 2020, impôs o isolamento social sob a forma de confinamento e distanciamento. Desde então, não tem faltado oportunidade para trocarmos ideias sobre o que tudo isso significa. Uma pergunta, contudo, me desperta interesse: O que há de inesperado no que estamos vivendo?

Isolamento social certamente já vivíamos, basta ver os mais pobres nas periferias das grandes cidades, bem como os mais favorecidos em luxuosos e fechados condomínios. A maioria de nós tem dificuldade para perceber, pois, encontra-se aprisionada a uma “caverna”, como diria Platão. Nossas mentes viciadas em fragmentar o que vemos e pensamos demoram para perceber o confinamento a que estão submetidas. A pandemia generalizou e escancarou o confinamento, tornando-o perceptível a todos, em sua forma mais concreta. Talvez a novidade esteja no motivo do confinamento. Antes, o que nos isolava era a decisão dos mais ricos em favor da autoproteção social, e a impotência dos mais pobres para superar a exclusão. Agora, é o novo coronavírus que ameaça, democratizando o risco de morte.

Um outro aspecto com cheiro de novidade é o confinamento. Ficar em casa parece ter surpreendido a muitos, independente de faixa etária ou condição socioeconômica. E mesmo esse aspecto nos leva de volta ao questionamento anterior, pois as casas são distintas, algumas funcionando como verdadeiras fortalezas contra o vírus, outras absolutamente indefesas; sem falar daqueles que moram nas ruas. O isolamento social – confinamento e distanciamento – é o que está nos acontecendo, mas não exatamente o inesperado.

Por outro lado, os impactos da pandemia na vida social – economia, política, educação e trabalho – se apresentam como inacreditáveis. O mercado que parecia uma locomotiva em aceleração, sem nada que pudesse freá-lo, de repente, desacelerou bruscamente: empresas fechadas, negócios suspensos, empregos perdidos, ações em baixa. A pandemia passará, mas deixará um saldo negativo para todos. Dentre os ricos, alguns sairão um pouco menos ricos, os pobres, mais empobrecidos. Também isso não parece ser o inesperado, se considerarmos os desdobramentos possíveis dessa crise.

Talvez o inesperado não esteja nessas ocorrências a que estamos todos submetidos, mesmo que afetar a todos seja inusitado. É possível que o inesperado possa se revelar melhor a partir da experiência proporcionada pela pandemia. O Papa Francisco lembrou que o novo coronavírus nos leva a perceber que estamos todos em um mesmo mar revolto. E alertou para a necessidade de reconhecer que existem problemas que só podemos resolver juntos.

O filósofo francês Edgar Morin tem insistido que em tempos de incertezas, como os que vivemos, é necessário esperar pelo inesperado. Pois bem, o inesperado pode ser bastante surpreendente e positivo. Para tanto, bastaria que a humanidade pudesse compreender duas coisas. A primeira que o modo de vida em curso é insustentável, do ponto de vista da preservação da vida no planeta; e a segunda é que a miséria machuca a maioria, mas compromete a minoria abastada. Como disse o saudoso Paulo Freire, ambos resultam desumanizados. Os primeiros porque são privados do direito de ser mais; os últimos, porque, de algum modo, corroboram. Logo, do ponto de vista da humanização, a miséria não interessa a ninguém. Por isso, a sustentabilidade da vida na casa comum passa por sua superação.

Os dois aprendizados teriam o poder de reeducar a humanidade. É muito difícil imaginar o que virá após a pandemia COVID-19. Contudo, se tal perspectiva vigorasse, não seria nada improvável o predomínio de três tendências:

  1. Valorização em massa da ciência como uma das mais sólidas forças da humanidade para sua autopreservação, superação da miséria e aumento da qualidade de vida para todos.

  2. A percepção clara do que é essencial à vida faria emergir com força a compaixão, condição para o desenvolvimento da espiritualidade como estilo de vida e base da agenda social e econômica das nações. A humanidade daria um salto espiritual. Entre outros ganhos, seria importante inspiração à escolha das prioridades adequadas à vida, bem como à definição da aplicação dos recursos técnicos e financeiros disponíveis.

  3. Por fim, para resolver problemas que exigem o empenho de todos, a consciência da interdependência faria emergir a solidariedade como a mais elevada expressão da maturidade espiritual da humanidade. Ciência e espiritualidade associadas em favor da solidariedade planetária.

O novo coronavírus confundiu nossos saberes, humilhou nossos poderes, expôs nossa impotência e mostrou que não estamos no comando de quase nada. E isso certamente já é por demais inesperado. Optamos, entretanto, em sobrevoar o que seria o mais desejável dos inesperados possíveis: o reencontro da humanidade com o essencial da vida. Rara oportunidade para aprender a retirar as sandálias e pisar respeitosamente o solo sagrado da casa comum.

José Leão da Cunha Filho
Licenciado em Filosofia. Mestre em Educação. Diretor de Identidade, Missão e Vocação da Província Marista do Brasil Centro-Sul, com sede em Curitiba-PR.

Sobre o Autor: O Estagiário

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