Carroça vazia faz mais barulho

O título deste texto vem de uma realidade tipicamente rural, interiorana, mas que é utilizada em diversas áreas do conhecimento e que inspira uma parábola chamada Carroça vazia. Eu a escolhi para falar de espiritualidade. Diz a parábola: 

“Certa manhã, meu pai, muito sábio, convidou-me a dar um passeio no bosque e eu aceitei com prazer. Ele se deteve numa clareira e depois de um pequeno silêncio me perguntou:- Além do cantar dos pássaros, você está ouvindo mais alguma coisa? Apurei os ouvidos alguns segundos e respondi:- Estou ouvindo um barulho de carroça.- Isso mesmo, disse meu pai, é uma carroça vazia… Perguntei ao meu pai: Como pode saber que a carroça está vazia, se ainda não a vimos? Ora, respondeu meu pai, é muito fácil saber que uma carroça está vazia por causa do barulho. Quanto mais vazia a carroça, maior é o barulho que faz.

Esta é uma analogia extremamente rica para celebrar Pentecostes, a festa litúrgica que encerra o Tempo Pascal e sela o compromisso de Jesus de que não ficaríamos órfãos. Em Pentecostes, nós celebramos a missão. O Evangelho de João 20,19-23, proclamado na liturgia deste ano, narra que Jesus, depois de saudar com a paz por duas vezes, pronuncia a seguinte palavra: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (cf. v. 21). 

Até aí parece que não tem muito a ver carroça vazia, aparição de Jesus, envio. Trago, portanto, a iluminação do Beato Charles de Foucauld (em breve, São Charles de Foucauld), ao ensinar que “nós, que queremos viver para Deus e de Deus, esvaziemo-nos de tudo o que é criado, de tudo o que não é Deus. Depois de nos ter esvaziado de tudo o que não é Deus, anunciemos seu Reino. É a vocação para todos.” 

Todos nós podemos nos tornar carroça vazia, fazendo um barulho tremendo, quando não a enchemos daquilo que é o essencial. Se deixamos nela apenas as nossas vaidades, desejos próprios e egoísmos, vamos ofuscando o esplendor de Deus que deve brilhar em nossa alma. Como diz o Irmão Charles, “depois de ter esvaziado de tudo o que não é Deus.” Devemos deixar em nossa alma, enchê-la, apenas aquilo que é Deus. Atenção! Não se trata de aprisionar Deus. Trata-se de encher-se Dele para dar sentido à vida, para comunicá-Lo. Creio que você deve conhecer pessoas cheias de Deus, não é mesmo? Pessoas que generosa e silenciosamente, sem alardes, nos fazem provar quão grande é seu amor e quão impregnadas estão do Santo Espírito.

Pentecostes é uma feliz oportunidade para isso: esvaziarmo-nos de nós mesmos e encher a nossa carroça com aquilo que é Deus. Não dá para fazer isso sem a benfazeja graça e luz do Espírito Santo. Papa Francisco nos diz que ele “é a Pessoa mais concreta, mais próxima, aquela que muda a nossa vida.” E São Paulo já nos ensina que “o Espírito vem em socorro da nossa fraqueza. É o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inexprimíveis. E aquele que examina os corações, sabe qual é o pensamento do Espírito, pois é de acordo com Deus que ele intercede em favor dos santos.” (cf. Rm 8,26-27)

Não tenhamos medo de pedir: vem, Espírito Santo, e preenche meu ser! 

Sobre o Autor: Marcus Tullius

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