Diante dos escândalos que rondam a Igreja Católica… Vale a pena ser Pascom?

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Nos últimos tempos, temos sido frequentemente expostos a notícias que relatam condutas criminosas de padres e bispos da Igreja Católica, muitas vezes com denúncias envolvendo crianças e adolescentes e, não raro, com a conivência de superiores hierárquicos. Abusos de menores… abusos de religiosas… corrupções, desvios de verbas de caridade para benefícios pessoais… enriquecimentos ilícitos. Tais escândalos fragilizam especialmente a fé das pessoas mais humildes.

Essa preocupação não é nova. Jesus já advertia sobre o perigo de escandalizar a fé dos “pequeninos”, dos que creem verdadeiramente (cf Mt, 18). Em 2017, durante homilia na missa que celebra quase diariamente na capela da Casa Santa Marta, no Vaticano, o Papa Francisco reforçou a mensagem do Evangelho e advertiu: “Não escandalizar os pequeninos com a vida dupla, porque o escândalo destrói”.

Diante de tantos escândalos, quem trabalha voluntariamente na Igreja se vê, em algum momento de sua caminhada, diante de um questionamento quase inevitável – “afinal, vale a pena continuar ajudando uma instituição envolvida em tantos problemas?”. A pergunta fica ainda mais inquietante quando o campo de atuação é o da comunicação. Como agentes da Pastoral da Comunicação (Pascom), a missão é anunciar ao mundo a Boa Nova de Jesus. E não há melhor anúncio que o testemunho. Vale seguir ajudando uma instituição com tantos contra testemunhos? A resposta é simples: Sim! Vale muito a pena! Mas é necessária uma reflexão mais complexa.

Em primeiro lugar, é preciso dimensionar o problema. Ainda que um único padre  ou bispo estivesse envolvido em desvios de conduta tão graves, isso já mereceria uma atenção das autoridades eclesiais e civis competentes para impedir que ele seguisse cometendo seus delitos livremente. Portanto, não se trata, em absoluto, de relativização! Mas é injusto julgar toda a instituição pela conduta de algum ou de alguns poucos.

Dimensionar o problema significa, antes de tudo, entender o seu tamanho para que seja possível encará-lo de frente. E aqui está um segundo passo a ser dado – denúncias de crimes cometidos por clérigos não podem ser ignoradas e nem justificadas sob nenhum aspecto. O discurso que procura simplesmente reduzir o problema a “provações”, “perseguições” ou “falta de oração” desrespeita a já violentada fragilidade das vítimas e de seus familiares. A Cesar o que é de Cesar. Errou – e mais que errou, cometeu crimes – deve pagar!

Assumir a fragilidade humana da Igreja, que pode errar no seu caminhar, é já um gesto significativo de ação pastoral. Lembro de ouvir de um velho cônego algo sobre a sorte que a humanidade tinha de Cristo ter querido uma Igreja humana, não feita de anjos. Os homens falham. Os homens se desviam. Os homens comentem crimes. E, se no passado parecia haver na Igreja estruturas hierárquicas que beneficiavam a impunidade (e aqui é preciso, de novo, cuidado na generalização), hoje a instituição reforça com frequência e insistência seus mecanismos para coibir e, se for preciso, punir atos criminosos. É preciso, portanto, tomar para si essa dupla consciência: 1) os homens que formam a Igreja podem falhar e até chegar a cometer crimes; 2) as falhas serão corrigidas e os crimes punidos.

Você não está, portanto, a serviço de uma instituição omissa. Por si, isso já justificaria o “vale muito a pena” seguir sendo Pascom. Para além disso, como agente pastoral, você é, antes de tudo, um evangelizador. O Papa Bento XVI explicou mais de uma vez que evangelização não é defesa de tese de uma ideia, mas o compartilhar prazeroso do encontro com uma pessoa que mudou sua vida. Essa pessoa é Jesus Cristo. A pergunta que você deve fazer diante dos escândalos, então, é se a manutenção da espiritualidade que nasceu deste encontro com Jesus Cristo está em dia.

Na correria das atividades do cotidiano, o agente da Pascom corre o risco de colocar o fazer tecnológico das ações de comunicação no lugar central que deveria ser ocupado pela sua espiritualidade – espiritualidade que deve ser sempre renovada no encontro com Jesus Cristo. Certo de que a Igreja não é formada por pedófilos e corruptos, como muitas vezes querem fazer você acreditar (e que, pelo contrário, ela é formada majoritariamente por homens e mulheres que se dedicam a transformar o mundo num lugar melhor), e com a sua fé fortalecida pela vivência de uma espiritualidade saudável, você vai saber enfrentar bem esse momento de aparente, e turbulenta, crise institucional.

Lembre-se do exemplo de pessoas da Igreja como Irmã Dulce dos Pobres, o anjo bom da Bahia, que será brevemente reconhecida oficialmente como santa. Ou de Dom Luciano Mendes de Almeida, que ajudou a diminuir desigualdades sociais na periferia de São Paulo. Ou de Nhá Chica, de Zilda Arns, do Papa Francisco! Procure na sua comunidade e você vai identificar pequenas Dulces, Chicas, Lucianos, Marias, Josés, Franciscos. Gente do povo, leigos, freiras, padres e bispos que, para muito além das grandes explicações, fazem não esquecer o porquê vale tanto a pena ser Pascom.

Sobre o Autor: Rafael Alberto

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