Recebemos esta pergunta pelo nosso Instagram e ela é muito interessante para, mais do que responder sim ou não, fazermos um caminho de reflexão. De imediato, a resposta é sim, para não contradizer ao próprio Evangelho.
Há uma passagem, relatada por três dos evangelistas – Mateus, Marcos e Lucas -, em que levaram crianças a Jesus e pediram que impusesse as mãos sobre elas. Rapidamente, o Mestre foi repreendido pelos seus discípulos. Com a sabedoria de Filho de Deus, Jesus responde: “Deixai as crianças virem a mim e não as impeçais, pois o Reino dos Céus pertence aos que se assemelham a elas.” (Mt 19,14) Nos relatos de Marcos (10,13-16) e Lucas (18,15-17), Jesus ainda acrescenta que quem não receber o Reino como uma criança, não entrará nele. Aqui está o fundamento da nossa resposta, a partir do Evangelho, e a abertura do caminho para algumas pontuações.
Juntos na missão!
É preciso superar uma mentalidade de fazer pastoral para as crianças e converter para uma pastoral com as crianças. É preciso que elas atuem respondendo ao chamado de Jesus, numa experiência de discipulado e, acima de tudo, precisam ser escutadas. Essa conversão da nossa mentalidade adulta, ajuda-nos a construir uma relação de sinodalidade, numa perspectiva horizontal, superando um processo feito de cima para baixo. É mudar a ideia de que “manda quem pode, obedece quem tem juízo” para um “vamos construir juntos”.
A atuação das crianças na Pascom não deve ser apenas um fazer mecânico, dada à sua habilidade, por exemplo, para lidar com dispositivos eletrônicos e novas ferramentas. As crianças nascidas desde 2010 pertencem à Geração Alpha, que tem como principal característica a conectividade com a tecnologia. Elas estão desenvolvendo uma nova visão de mundo, pois desde que nasceram já recebem estímulos a esse ambiente tecnológico. Esta é a geração atual e não podemos negar essa realidade. Contudo, não podemos deixar que isso se sobreponha à experiência pastoral.
Esta geração aprende fazendo e preza mais pela experiência. Não gosta de ficar só ouvindo, ouvindo, ouvindo sem fazer nada… Por isso, é preciso dar sentido à experiência, deixando que elas façam, mas, sempre acompanhadas por algum outro jovem ou adulto. Não se trata de uma vigilância, por medo que façam algo errado, colocando-as como coadjuvantes no processo. É um acompanhamento para que sejam, verdadeiramente, protagonistas, e, unindo à sua habilidade de fazer, aprendam sobre comunicação, evangelização, a Pessoa de Jesus Cristo, a vida em comunidade.
Um passo importante para que haja esse aprendizado é a integração com a catequese. Participar da Pascom não deve ser uma substituição ao processo de iniciação à Vida Cristã. Deve ser algo integrado. Não se trata de complementar o caminho catequético, pois isso daria margem para entender que ele é incompleto e precisaria de algo mais. Trata-se de integrar o caminho de identificação com o Reino de Deus, conhecendo melhor a Jesus, respondendo ao seu chamado como discípulos-missionários.
Acolher as crianças na Pascom é, portanto, uma forma de ajudá-las a entender que na lógica do seguimento de Jesus, a melhor forma de dizer “sim” é servindo com alegria e disposição. É uma forma de vivência do nosso Batismo que se renova a cada dia.
Os jovens e adultos que acompanham as crianças na Pascom façam desta oportunidade um aprendizado e construam juntos um itinerário formativo, em sintonia com seus pais e responsáveis. O coordenador da Pascom, em comunhão com o pároco, ou assessor pastoral, frequentemente, deem feedback aos pais, aos catequistas, sobre o processo feito por elas na Pascom.
E o acesso às redes sociais?
Especificamente no que diz respeito ao acesso às redes sociais, é importante levar em conta as especificidades (principalmente legais) de cada plataforma. A maioria delas – Instagram, Facebook, YouTube e TikTok, por exemplo – estabelece 13 anos como a idade mínima para a utilização. Não necessariamente todas as crianças que atuam na Pascom precisam acessar os perfis oficiais da Paróquia, ou Diocese. Como esta não é a única atividade, nem finalidade, de uma Pastoral da Comunicação, elas podem desenvolver outros serviços e, acompanhadas por outros membros, aprenderem também sobre o ambiente.
A formação, para além das técnicas (que muitas já dominam!), passa pelo conhecimento do próprio ambiente digital, com suas ciladas e possibilidades, a apresentação de outras modalidades de comunicação (para muitas, um mural com informações impressas pode parecer algo ultrapassado, e não é) e a natureza transversal da Pascom, mostrando-as que ser Pascom não é postar coisas ou fazer lives. Neste ponto, é preciso considerar a mensagem para o 41º Dia Mundial das Comunicações Sociais, de 2007, em que o papa Bento XVI propôs o tema “As crianças e os meios de comunicação social: um desafio para a educação”. Nela, o pontífice reconhece que a comunicação tem um papel importante para formar as crianças pelos caminhos da beleza, da verdade e da bondade, na medida em que promove a dignidade humana fundamental.
Mais do que uma resposta fechada, aqui foram dadas algumas reflexões para fazer uma comunicação pastoral com as crianças. Cada realidade eclesial pedirá uma ação específica, em sintonia com as orientações pastorais locais, sejam diocesanas ou paroquiais. O importante é não nos fecharmos à ação do Espírito, que sempre nos desafia e suscita novos dons para ação pastoral na Igreja. Este, certamente, é um deles!

Marcus Tullius é coordenador-geral da Pascom Brasil e membro do Grupo de Reflexão sobre Comunicação da CNBB (Grecom CNBB). É mestrando em Comunicação Social pela PUC Minas. Autor do livro Esperançar: a missão do agente da Pastoral da Comunicação e organizador do livro Comunicar para humanizar: a comunicação a partir do Papa Francisco, pela editora Paulus.
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