IMAGEM E EXPERIÊNCIA CONTEMPLATIVA – re-aprendendo a rezar com as cenas do dia-a-dia

“Nada direi que não seja fruto da experiência, quer pessoal, quer por vê-los nos outros”

(Santa Teresa de Jesus)[1]

“Deus supera-nos infinitamente, é sempre uma surpresa (…) já que não dependem de nós o tempo, nem o lugar, nem a modalidade do encontro” (Papa Francisco)[2]

Teresa de Jesus não era considerada uma teóloga, na propriedade do termo.  Assim dizem seus biógrafos, assim ela mesma (não) se considerava. Mas a primeira Doutora da Igreja soube extrair da singeleza da obra divina criada[3], das coisas que via e ouvia, dos detalhes mais simples da sua rotina, os elementos que a aproximaram de Deus.  Para nos conduzir ao interior onde nos encontramos conosco e com Deus, usou certa vez de uma imagem, o Castelo Interior, com muros e passagens que guardam a preciosidade das moradas mais e mais internas e valiosas.

Vislumbrara, a partir da linguagem e realidade medieval na qual vivia e rezava, uma imagem que lhe representava a descoberta de si e de Deus em si. Ela própria, consciente da comparação feita e do que poderia extrair daquela imagem específica, muito prática e comum aos seus, advertiu: “É preciso prestar muita atenção a esta comparação. Por meio dela, talvez queira Deus que eu explique algumas das graças que ele concede às almas…”[4].

Tereza do Menino Jesus, à luz das inovações de seu tempo (final do séc. XIX, momento já avançado da Revolução Industrial, descobertas científicas contemporâneas etc), disse com ousadia juvenil e própria dos Santos, íntimos de Deus, que sua subida aos céus seria a ação do Amado como seu elevador [5] – uma peça da engenharia que se inaugurava naqueles tempos – transportando-a rápido e em segurança, suplantando sua fragilidade e pequenez. Usou, então, uma imagem contemporânea da inovação, para inovar o diálogo a respeito de Deus e com o próprio Deus, ou seja, na sua forma de rezar.

João da Cruz, não bastasse sua escrita sublime, era dado a esboços, desenhos. Seu esboço da Cruz foi a inspiração de Salvador Dali para a obra “Cristo de São João da Cruz” (1951).  De modo especial, seus traços que desenharam o Monte de Perfeição (que depois fundamentaram seu tratado Subida do Monte Carmelo) são um tesouro para a história religiosa e para nos aproximarmos de como um santo consegue mergulhar na experiência teológica e expressar o mistério de Deus através das situações e realidades igualmente à vista de todos nós – mas assimiladas por poucos:

O santo de Yepes utiliza como modelo de reflexão e diálogo com Deus, fragmentos de cenas que lhe eram peculiares, já que seus deslocamentos pelas regiões espanholas, com visitas aos mosteiros, com andanças às cidades e a seus atendidos, forneciam-lhe imagens ordinárias, por longos períodos, que ele soube converter em extraordinário.

E o próprio Cristo… Era nos afazeres domésticos; na lida do campo; no caminho do andarilho; na realidade do patrão ou no esforço do empregado; na rede de pesca e no pastoreio da ovelha que Ele encontrava a manifestação do sagrado ao seu redor. Dali brotavam suas meditações, suas pregações e suas orações.

Olhai as aves do céu! Observai os lírios dos campos! (Mt 6, 26-27).

É lógico: tratando-se de Deus, tudo se inicia pelo amor e tudo termina no amor[6]. Irrigados de amor, sempre poderemos começar a enxergar além do que vemos:

O ponto de inspiração e o convite desta reflexão está em refletir como todos nós estamos cercados de realidades especiais (mesmo que as mais rotineiras), cenas e ações, que a todo tempo nos querem transmitir – por pura bondade de Deus – uma oportunidade real de oração encarnada. Trata-se de ressaltar a graça especial que temos para conseguir encontrar em realidades simples a grandeza das expressões divinas.

Por vezes, na busca transcendental de experiências místicas, deixamos passar a mística da simplicidade experencial. No exercício esforçado demais para alcançar o alto cume das montanhas, esquecemos de vislumbrar as belezas do trajeto. Talvez a isso também possamos chamar contemplação: “É verdadeira contemplação todo o ato de conhecimento e olhar simples sobre a verdade sob a influência do amor”[7].

Como o carmelita, orante e contemplativo por vocação; como o cristão que se coloca à disposição de Deus e O busca de coração sincero, pode estabelecer uma relação de contínua presença em Deus, ao invés de uma espiritualidade de momentos / momentânea?

É necessário que reaprendamos a observar.

Esta prática (exercício diário, predisposição consciente) ajuda não só a levar a oração para o dia-a-dia, mas a trazer a oração a partir do concreto do dia-a-dia. Porque a oração não precisa e não deve ficar enquadrada em determinados momentos. E, como sabemos, ela não é um mero balbuciar dos lábios. Transbordar a oração para as circunstâncias que nos cercam é o vertedouro da prática oracional. E o que nos acompanha na jornada diária? Um mundo físico, visual, tátil, sonoro – no qual podemos estar atentos e despertos para a manifestação do sagrado nos atos, fatos e cenas que preenchem o viver humano.

É a oração que transborda para o mundo – e o mundo que pode abastecer de sentidos a oração. Contemplação.  Santo Agostinho, por meio do seu delicado jogo de antíteses e paradoxos apaixonados, declara-se de amor a Deus reconhecendo: “Ó Deus tão oculto e tão presente…” [8].

Tão oculto e tão presente!

A oração que aproveita os retalhos de tempo, como costuma identificar Frei Patricio Sciadini OCD, uma realidade da vida moderna, da oração no ônibus, no aeroporto, no mercado, no trânsito, também se solidifica na aprendizagem de estarmos unindo o que se passa ao nosso redor e o que nosso olhar orante pode assumir como ação contemplativa.  Ressignificar o olhar.

Aqueles a quem chamamos de artistas sabem fazer isso naturalmente. A Liturgia das Horas, nas Preces de Vésperas da III Semana do Saltério presta homenagem e o reconhece: “Vós que tornais os artistas capazes de exprimir a vossa beleza, por meio da sua sensibilidade e imaginação, – fazei de suas obras uma mensagem de alegria e de esperança para o mundo”[9].

Mas isso não precisa ser uma prerrogativa dos ditos artistas: em verdade, a capacidade de ver já nos predispõe como artistas natos, por graça de Deus! Usemos isso para nossa santificação diária!

Um antigo professor de fotografia afirmou: “Fotografamos desde que nascemos”. A frase revelava exatamente que todos utilizamos a luz que nos cerca e lança cores e formas às coisas desde que abrimos os olhos[10], independente das máquinas fotográficas. Os olhos são a primeira e maior câmera. Lidamos com a luz, com as formas, com a alegria de perceber-se cercado das cenas e das imagens… foi exatamente a experiência que o autor do Eclesiastes fez quando declarou “Doce é a luz e é um deleite para os olhos ver o sol” (Ecle 11, 7). E daí, fazer brotar a meditação.

Sempre nos perguntamos: “- Como este grande fotógrafo pode ter feito esta foto? Como ele viu isso?”. Entender (e viver) essa chave que liga os olhos, a mente e o coração numa mesma linha é o que pode nos ajudar a também ir percebendo a grandeza de meios de diálogo de Deus conosco, e nosso com Ele, pela caminhada nas ruas, dentro dos carros, diante das nossas comunidades eclesiais, no ritmo das circunstâncias de nossos trabalhos; no raiar do sol e no cair da chuva, no vidro que se quebra, nos passos que os pedestres gastam pelo chão.

Há uma lição básica para os que começam a fotografar, para quem inicia na pintura – e agora para nosso diálogo sobre o orar com as imagens do dia-a-dia: a noção de que apenas ver já não basta.  Podemos expressar isso com uma frase simples (que pode receber diferentes construções) e que basicamente nos desperta assim:

Ver é diferente de enxergar.

O que você vê quando olha um pássaro pousado na árvore? E um pássaro na gaiola? E o pássaro a descansar nas cumeeiras dos telhados? E o que você pode enxergar a partir destas cenas?

O que João da Cruz viu quando o pássaro mergulhou as delicadas patinhas no visgo da árvore? O que nos interessa, mesmo, é o que João enxergou ali: “Duas vezes trabalha o pássaro que se deixa prender ao visco, a saber: o libertar-se e limpar-se; de duas maneiras sofre quem satisfaz seus apetites: libertar-se e depois de liberto, limpar-se do que se lhe pegou”[11]

O fotógrafo franco-americano Elliott Erwitt comentou, certa feita: “A fotografia é uma arte de observação. Tem pouco a ver com as coisas que você vê e tudo a ver com a maneira como as vê”. Neste caso, por fotografia, compreendamos também nosso olhar natural e diário para as coisas que nos cercam; nosso ver se transformará em enxergar quando passarmos às experiências, ou à maneira como se vê.

Frei Patrício, em recente pregação durante o Congresso Norte-Nordeste da OCDS – Província São José[12], tomou como exemplo a mão que é lavada na pia, para refletir a ação do pecado em nós: olhemos nossas mãos na luz, e elas se mostram muito limpas. Levemos as mãos à pia e deixemos a água correr sobre elas, e vemos as gotas de sujeira que, soltando-se, mostram o quanto estavam ocultamente presas a nós. É um exemplo claro de olhar contemplativo sobre uma cena corriqueira, e que nos leva a rezar.

E é claro que, em Teresa de Jesus, o praticíssimo “Deus está entre as panelas”, com diversas interpretações e aplicações, é um dos pontos altos da capacidade de enxergar a ação e comunicação de Deus nas cenas mais habituais.

Por certo, esta ação não é uma mobilização exclusiva da nossa consciência e do nosso querer: deverá ser a união de nossa predisposição generosa e o desejo piedoso de sermos agraciados, dia após dia, com a ação iluminadora do Espírito Santo em nós: Ó Deus, que instruístes os corações dos Vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas, segundo o mesmo Espírito!

“O Espírito Santo é derramado em nós ‘para podermos conhecer tudo o que Deus nos deu’ (cf.1Cor 2, 12). Aqui, conhecer significa, no entando, mais do que um simples saber; significa admirar com gratidão, ver com clareza, gostar, possuir”, ensina o Frei Raniero Cantalamessa[13].

A capacidade humana de olhar as coisas ao redor, ter ao nosso dispor a luz que a tudo clareia e presenciar os fenômenos da vida, é presente generoso dado por Deus a nós. Daí, a menor das coisas pode ser um grande tema, o pequeno fato pode ser uma oração. Inundados de estímulos visuais pelas novas e antigas tecnologias, atordoados com os compromissos e exigências que se acumulam em horários cada vez mais exíguos, fomos ofuscando nossa capacidade (divinal) de nos deixar encantar frente a movimentos, expressões, nuances, mensagens…  “O que existe de mais fugaz do que uma expressão num rosto?”[14]

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate destacou isso:

Com efeito, as novidades contínuas dos meios tecnológicos, o fascínio de viajar, as inúmeras ofertas de consumo, às vezes, não deixam espaços vazios onde ressoe a voz de Deus. Tudo se enche de palavras, prazeres epidérmicos e rumores a uma velocidade cada vez maior. (…) Precisamos de um espírito de santidade (…) para que cada instante seja expressão de amor doado sob o olhar do Senhor[15].

A medida e o mirar estão, enfim, na percepção de que a santidade é feita de uma abertura habitual à transcendência, de que o santo (todos nós, chamados à santidade!) é alguém com espírito orante mediante diferentes circunstâncias, diante dos fatos, diante das cenas que os olhos enxergam freneticamente, e que sempre carrega uma necessidade de comunicar-se com Deus[16], e “no meio de seus esforços e serviços, suspira por Deus, sai de si erguendo louvores e alarga os seus confins na contemplação do Senhor”[17].

E assume para sua vida e seus olhares mundo afora, a consciência íntima e apaixonada que Agostinho expressou com tamanha facilidade: “Que amo eu, quando Vos amo? (…) amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um abraço, quando amo o meu Deus…”[18]

 

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Todas as fotos deste texto são autoria de André Fachetti Lustosa.

[1] TERESA DE JESUS. Caminho de Perfeição, 1. ed. ; 14. reimpr. São Paulo: Paulus, 2015, Prólogo.

[2] PAPA FRANCISCO. Gaudete et Exsultate: sobre o chamado à santidade no mundo atual. São Paulo: Paulinas, 2018, n.41.

[3] “Será, talvez, pelo fato de nada do que existe poder existir sem Vós, que todas as coisas Vos contém?” (AGOSTINHO. Confissões. 1. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1973, I, 2, p.26)

[4] TERESA DE JESUS. Castelo interior ou moradas, 10. ed. São Paulo: Paulus, 2002, I, 1, p.21.

[5] TERESA DE LISIEUX. História de uma Alma. Manuscritos autobiográficos. 1. ed. ; 31. reimpr., São Paulo: Paulus, 2015, Manuscrito C, X, 3, p.226.

[6] DI BERARDINO, Pedro Paulo. Itinerário Espiritual de Santa Teresa de Ávila: Mestra de oração e Doutora da Igreja. 5. ed. São Paulo: Paulus, 2009, p.9.

[7] MENINO JESUS, Frei Maria-Eugenio do. Quero Ver a Deus. 1. ed. Petropolis: Vozes, 2015, p.550. No contexto da citação, o Bem-Aventurado adverte que a contemplação tem graus e formas diversas, e que não se deve reservar a denominação de contemplação apenas àquela sobrenatural ou infusa da qual Santa Teresa fala, a partir das Quartas Moradas.

[8] Confissões IV, 4, p.27.

[9] Vol. III, p.950.

[10] “A própria rainha das cores, esta luz que se derrama por tudo o que vemos e por todos os lugares em que me encontro no decorrer do dia (…) os que nela sabem achar motivos para Vos louvar, ó Deus, Criador de todas as coisas, assumem-na como um hino em vosso louvor…” (Agostinho, Confissões, X, 33, p.220)

[11] JOÃO DA CRUZ. Obras completas. Ditos de Luz e Amor. 7. ed. 9. reimpr. Petrópolis: Vozes, 2018, p.95.

[12] SCIADINI OCD, Frei Patrício. Santa Teresa dos Andes:  a carmelita da América. In.: CONGRESSO OCDS NORTE-NORDESTE, 15., 2020, João Pessoa. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=o3bGZ7xyUZw. Acesso em: 23 jun.2020.

[13] CANTALAMESSA, Raniero. Vem, Espírito Criador: meditações sobre o Veni Creator. São Paulo:
Canção Nova, 2014, p.377.

[14] CARTIER-BRESSON, Henri. O Imaginário Segundo a Natureza. Barcelona: GG, 2004.

[15] n.29.

[16] idem, n.147.

[17] ibidem.

[18]  Confissões, X, 6, p.198

Sobre o Autor: André Fachetti Lustosa

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