Inspiração católica na TV

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Santa Clara é um ícone da ternura coadjuvante. Ela, como São José, abriu mão do protagonismo e escolheu apoiar, inspirar-se e seguir ao movimento que Deus mesmo proporciona aos seus escolhidos. Ela conheceu, amou e tornou-se seguidora de Francisco de Assis, ao modo do Patrono da Igreja que abraçou a missão de ser apoiador, seguidor dos milagres divinos ocorridos na vida de Maria Santíssima. Ela inspira a cultura dos tempos atuais nessa atitude tão diferente da onda que prega a fúria do sucesso pessoal, mesmo que às custas do assombreamento daqueles que estão por perto. Também por isso, ela é a padroeira da Televisão, um veículo, um instrumento, um apoio, uma ferramenta para que se possa levar às telas o conteúdo humano de hoje e de sempre.

Em 1958, quando o Papa Pio XII proclamou Santa Clara como padroeira, nem a própria Televisão estava bem consolidada no mundo. Considera-se, em geral, que a população mundial só teve algum tipo de acesso a ela a partir da década dos anos de 1920. Era ainda muito cedo, mas a história que veio a seguir mostrou muito mais afinidades entre a missão vivida por Clara e os feitos da Televisão do que simplesmente aquele curioso fato levantado em sua biografia de que no Natal de 1253, ela, estando acamada, desejou muito participar da santa missa e, segundo seu depoimento pessoal, houve um milagre e do seu quarto, na cama, Clara viu e ouviu a missa.

A Televisão, na opinião de um filósofo e ativista norte-americano, Noam Chomsky, tanto pode dar sonolência como despertar a consciência de seus usuários. Depende do poder que detém o seu operador e do conteúdo que apresenta: “A verdade dos fatos encontra-se enterrada debaixo de montanhas e montanhas de mentiras. Do ponto de vista de evitar a ameaça a democracia, tem se mostrado um sucesso formidável, alcançado num contexto de liberdade, o que é extremamente interessante. Não é com um Estado totalitário, em que é feito por meio da força. Esses feitos acontecem num contexto de liberdade…” (Mídia, propaganda política e manipulação).

Qualquer reflexão sobre Televisão que desconheça o fato de que o poder não está apenas no meio, mas na mensagem, como se dizia antigamente, pode se superestimar ou subestimar essa maravilha de comunicação do século XX e que agora, aliada à internet tornando-se apenas um vídeo, continua a ser um espetacular instrumento de exercício da liberdade, da democracia, e, claro, da difusão dos valores humanos e cristãos. A Televisão, portanto, não é a protagonista, mas a coadjuvante na era revolucionária da comunicação dos dias atuais. Em seu formato aberto e gratuitamente disponível para a população, ou pelos cabos especiais ou ainda pela telinha do celular, a Televisão ainda tem vida longa.

Santa Clara inspira os operadores católicos da Televisão. Inspira a fazer dela instrumento de aproximação com os sacramentos, de educação da fé, de apresentação de valores culturais que engrandecem a alma humana. Santa Clara inspira o papel coadjuvante da Televisão e isso significa que o que mais importa é a transmissão de conteúdo verdadeiro e não as manipulações que a técnica permite e que pode distorcer os fatos, induzir comportamentos e corromper as consciências. A coadjuvância não significa anonimato e nem supressão de dons. Santa Clara foi a primeira mulher em toda a história da Igreja que redigiu uma regra para que o fantástico carisma de Francisco de Assis fosse conservado em todas as comunidades femininas.

A Televisão que se encontra sob a definição de inspiração católica precisa, por assim dizer, em consonância com a inspiração de sua padroeira, tomar uma vacina contra doença do protagonismo secular e executar, plena e serenamente, o papel de coadjuvante na comunicação e na Igreja. Tornar-se instrumento acessível para a verdadeira protagonista da vida cristã que é a comunidade eclesial e o mistério humano de cada um dos seus membros. Uma Televisão servidora, aberta, de inspiração católica, isto é, em profundo diálogo com tudo o que é humano no mundo.

Uma Televisão de inspiração católica não se agarra à luta por audiência usando as ferramentas do mercado, mas oferece o seu produto para somar, para contribuir, junto com outras coirmãs um espaço de catequese, de celebração, de conscientização cidadã e de sadio entretenimento. Uma verdadeira alternativa ao que o mercado do “tudo pela audiência”. Uma Televisão de inspiração, desse modo, não tem concorrência porque desiste de disputar para oferecer algo a mais, algo que não exclui as outras emissoras.

Nesse sentido, o projeto televisivo que se inspira uma catolicidade verdadeira, isto é, aquela da inclusão e da busca da realização do sonho da fraternidade, é marcado, desde os seus primórdios no diálogo com a inteira comunidade cristã. Na escuta da Palavra que a tudo ilumina e do Magistério que explica, corrige, indica direções. Uma Televisão de inspiração católica precisa, verdadeiramente, escutar os pastores das Igrejas Particulares que são atingidas pelo seu sinal. Precisa compreender o apelo do Santo Padre para uma legítima experiência de “Igreja em saída” de modo a refletir tudo isso em sua grade de programação.

Uma Televisão assim deve olhar mais para o exemplo de Clara de Assis, sua padroeira. Durante a sua vida, ela prometeu obedecer a São Francisco em tudo. A virtude da obediência, tão em baixa nos círculos atuais, é um legado que merece resgate, atenção e prática. Uma Televisão de inspiração católica só tem sentido de existir se exercitar uma legítima obediência à Igreja em todas as suas expressões, especialmente naquilo que emana da orientação dos seus pastores. Tanto na retidão do repasse da doutrina da fé, na prática excelente da liturgia, na animação bíblica e da catequese, no fortalecimento da ação missionária e na cooperação intereclesial.

Não se pode entender que uma emissora de Televisão seja de inspiração católica sem perceber nela, tanto na sua programação como em seu conteúdo geral, um devotamento especial em ajudar a juventude em seu crescimento na fé, em promover o papel dos leigos no interior da comunidade eclesial e no seu compromisso no ambiente da sociedade. Uma Televisão assim exige, por assim dizer, um comprometimento explícito e diário com os valores da vida e da família e uma cortês e sincera referência ao mundo das vocações tanto para o sacerdócio, como para a vida consagrada e os leigos.

Santa Clara inspira uma emissora com esse perfil a conservar a beleza de ser uma coadjuvante oferecendo o melhor no campo da informação e da educação política. Sendo vista pelo Brasil, uma Televisão católica precisa também se interessar pela Amazônia, terra nossa, terra querida da Igreja, terra sofrida, mas também terra deslumbrante, belíssima. Santa Clara sempre foi representada pela iconografia como uma moça muito bonita. A beleza verdadeira deve ser também uma constante inspiração para a Televisão que se inspira na fé católica. Bonita porque correta, bonita porque livre, bonita porque aberta e acolhedora para ser vista por crentes e não crentes.


Pe. Rafael Vieira, CSSR 

Jornalista e diretor geral da Tv Pai Eterno.
Atuou como assessor de imprensa e assessor da Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação da CNBB

Sobre o Autor: O Estagiário

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