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Marta ou Maria?

A nossa decisão é iluminada pela resposta do próprio Jesus no diálogo que tece com Marta, a partir do incômodo que lhe causa ao ver Maria sentada aos seus pés.
(Cristo na Casa de Marta e Maria, pintura de Giovanni da Milano na Igreja da Santa Cruz, Florença)

O Evangelho proclamado pela Igreja neste 16º domingo do Tempo Comum nos leva até a casa de Betânia, onde Jesus foi acolhido pelas irmãs Marta e Maria. Os cinco versículos descritos pelo evangelista Lucas (10,38-42) são suficientes para nos interrogar com qual personagem nos identificamos: Marta ou Maria? Penso que Marta e Maria também podem ser indicativos de dois perfis de comunicadores cristãos.

A nossa decisão é iluminada pela resposta do próprio Jesus no diálogo que tece com Marta, a partir do incômodo que lhe causa ao ver Maria sentada aos seus pés. “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada”. (Lc 10,41-42).

Há um detalhe, porém, antes desta resposta que dá o tom do perfil das irmãs e que é sublinhado pelo Papa Francisco na alocução que precedeu ao Angelus neste domingo. O versículo 39 indica que Maria “sentou-se aos pés do Senhor”. Diz o Papa

“ela não ouvia de pé, fazendo outra coisa, mas sentou-se aos pés de Jesus. Ela entendeu que Ele não é um hóspede como os outros. À primeira vista, parece que Ele veio para receber, porque precisa de comida e abrigo. Na realidade, o Mestre veio nos dar a si mesmo através de sua palavra.”

Ao olhar para a resposta de Jesus endossando a atitude de Maria, corremos o risco de simplesmente ignorar Marta. O “escolher a melhor parte” é a recordação perene que deve ter o comunicador daquilo que é necessário. A hospitalidade, palavra-chave quando olhamos para esta narrativa, nos inspira a acolher Deus em nossa casa – física e interior -, afastando-nos de um ativismo desenfreado. É preciso nos sentarmos aos pés de Jesus para escutar as propostas que Ele nos faz. Só assim a nossa ação terá sentido. Se não paramos para o escutar o que Ele quer e, também, o que a nossa comunidade necessita, acabamos por fazer o que eu acho, o que eu quero, o que eu penso, reduzindo a ação pastoral a um ato egoísta.

Ao refletir que não existe comunicação real sem a presença do Espírito, por ocasião de Pentecostes, recordei uma reflexão das atuais Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil que nos indicam que é preciso superar a ideia de que o fazer já é uma forma de oração. Retomo:

“Muitas atividades podem facilmente levar os cristãos a caírem em tentações como ativismo, vaidade, ambição e desejo de poder. Nessa perspectiva, os agentes de pastoral correm o risco de se esquecer da dignidade batismal, como verdadeiros sujeitos eclesiais, reduzindo-se a meros voluntários”.[1]

A dinâmica da comunicação comporta espaço para Maria e para Marta. O ativismo gera rapidamente desânimo e cansaço, pois não encontramos a motivação para servir e vemos aquele ato apenas como um trabalho. Ao invés de começarmos a fazer as coisas automaticamente, como máquinas, olhemos para o Senhor, para a sua Palavra, nos inspiremos ao que Ele quer nos dizer. Maria nos ensina a ouvir com atenção e dedicação, Marta nos ensina a energia e a disposição. Busquemos ser Marta-Maria na comunicação!

 

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[1] CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. Brasília: Edições CNBB, 2019. p. 55.