O “querer” do Espírito

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O caminho da Igreja Católica em relação à comunicação é pontuado por pequenas/grandes iniciativas que compõem a história de uma relação, por vezes sofrida, mas caracterizada pelo esforço, esperança e concretização de significativos avanços. Ao longo do percurso, a história nos ilustra e revela muitos exemplos, marcando as diversas fases da trajetória. Entre eles, o jornal L’Osservatore Romano, publicado pela primeira vez em 1861, jornal diário político-religioso (em várias línguas) e que enfrentou, também, ao longo do tempo profundas transformações, atualizando-se conforme as épocas e com os ensinamentos do magistério da Igreja.
Em 1928 a criação de três organizações com o objetivo de que, sobretudo profissionais católicos fossem cristãos atuantes no campo da mídia: Organização Católica Internacional de Prensa (UCIP), para impressos; Organização Católica Internacional de Cinema (OCIC), para cinema e vídeo; União de Radiodifusão Católica (UNDA), para rádio e televisão. Hoje, essas organizações, seguindo um processo de convergência, existem como uma Associação Católica de Comunicação (SIGNIS).
Outra iniciativa significativa foi a fundação da Rádio Vaticana pelo papa Pio XI em 1931, com forte relevância no quadro das iniciativas da Igreja Católica, na década de 1930.
Entretanto, foi com o Concílio Vaticano II (1962-1965) que o “querer” do Espírito se manifestou profusamente. Década de 1960. A sociedade vivia grandes e profundas transformações. Nascia a exigência de um novo olhar, um novo diálogo da Igreja com a sociedade. Seguindo a inspiração do Espírito, o papa São João XXIII abriu as portas da Igreja para uma evangelização em diálogo com o mundo moderno, o diálogo entre fé e cultura, convocando toda a Igreja para um “aggiornamento” (atualização) que se concretizou como Concílio Vaticano II. Era urgente que a Igreja se inserisse na história e fosse a Igreja de todos os povos com um anúncio do Reino de Deus renovado e ao encontro das necessidades do homem contemporâneo, este foi o desejo de João XXIII, já no discurso de abertura do Concílio Vaticano II (11/10/1962) quando usou as palavras-chave diálogo e aggiornamento.
Nas diversas etapas da realização do Vaticano II, os participantes aprofundaram e “iluminaram” o significado teológico e pastoral da nova evangelização, percebendo, conhecendo e incentivando possíveis iniciativas ligadas à nova evangelização. Toda a reflexão resultou na elaboração de 16 documentos.
E é com um dos seus documentos, a Constituição pastoral Gaudium et Spes, que a Igreja começa a ter uma visão completamente nova sobre a relação Igreja e mundo, de aproximação e não de distanciamento. Tal visão é um marco fundamental no aggiornamento que a Igreja se propusera. Ela se situa no mundo, compreendendo o momento de secularização em que a religião não é levada em conta, está decentralizada. Adota, então, uma postura de diálogo para cumprir sua missão de “salvar a pessoa humana, de edificar a sociedade humana” (GS 3). Surge aí uma exigência: escutar o mundo, compreender os seus problemas, os seus caminhos de esperança e aí anunciar ao mundo a palavra do Evangelho, que é Cristo.
Dessa mudança de postura, decorre que a pedagogia de evangelização e de ação pastoral não deveria ser de imposição, mas de um diálogo com toda a sociedade humana, em especial com a ciência, para contribuir principalmente na dignidade da pessoa humana em sua integralidade. E mesmo após 54 anos de sua publicação, o diagnóstico feito pela Gaudium et Spes continua válido para nossos dias, pois embora as mudanças se sucedem, o eixo de abertura para o mundo moderno, mediante o diálogo é aquele que permanece como eixo principal para realizar a evangelização.
O “querer” do Espírito
Sem ousar ou desenvolver interpretação “pretensiosa” e unilateral, pensamos que uma das grandes conquistas do Concílio Vaticano II foi interessar-se e dedicar um documento à comunicação, o decreto Inter Mirifica. Refletindo sobre a temática dos documentos do Vaticano II, era óbvio que a Igreja iria tratar de temas como, por exemplo, a sua própria identidade (Lumen Gentium); sua atuação no mundo (Gaudium et Spes); sobre o culto, liturgia (Sacrossanctum Coincilium); sobre a Palavra de Deus (Dei Verbum).
A conquista diferencial se iniciava com a introdução da temática da comunicação na pauta de um Concílio, seja pela participação na Comissão que preparou o documento, seja na perspicácia de quem percebeu uma Igreja não dialogante ainda com o mundo da comunicação. Daí o incentivo para o início de uma reflexão mais apurada, a criação de estratégias e mecanismos para que a comunicação fosse pensada, refletida e incluída na evangelização ao ponto de dizer, em um documento mais tarde (Evangelii Nuntiandi) que a “A Igreja viria a sentir-se culpável diante do seu Senhor, se ela não lançasse mão destes meios potentes que a inteligência humana torna cada dia mais aperfeiçoados. É servindo-se deles que ela “proclama sobre os telhados”(72), a mensagem de que é depositária. Neles encontra uma versão moderna e eficaz do púlpito. Graças a eles consegue falar às multidões” (EN.n.45). Nessa conquista diferencial, destacam-se personagens de talento e pessoas inundadas do Espírito como o Papa São João XXIII, o jesuíta Pe. Enrico Baragli, Monsenhor Deskur, (Secretário do Pontifício Conselho para as comunicações, no Vaticano) e o Papa São Paulo VI.

Cantinho das sugestões, para refletir e aprofundar a temática:

CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Pastoral Gaudium et Spes. São Paulo: Paulus, 1997. (Coleção Documentos da Igreja).
LOPES, Geraldo. Gaudium et Spes: texto e comentário. São Paulo: Paulinas, 2011.
PAULO VI. Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi. São Paulo: Paulinas, 1976.
PUNTEL, Joana T. Comunicação: diálogo dos saberes na cultura midiática. São Paulo: Paulinas/SEPAC, 2010.
SOUZA, N. de. Contexto e desenvolvimento histórico do Concílio Vaticano II. In: LOPES, G. P. S.; BOMBONATTO, V. I. (orgs.). Concílio Vaticano II: análise e prospectivas. São Paulo: Paulinas, 2004

 

* Ao se servir do conteúdo deste artigo, gentileza citar a fonte. 

 

Sobre o Autor: Ir. Joana Terezinha Puntel, fsp

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