Por que esta semana é diferente das outras?

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A Igreja iniciou a Grande Semana e, mais uma vez, com as restrições da pandemia, a comunicação ajuda as pessoas neste tempo rico de memórias. Memória da Páscoa de Cristo, memória das nossas páscoas, memória das nossas próprias memórias. Na celebração judaica, no Seder de Pessach, significativamente, uma criança faz a seguinte pergunta: Por que esta noite é diferente de todas as outras? O pai, respondendo à pergunta, conduz o itinerário de transmissão da fé fazendo memória da libertação. Hoje nós todos podemos assumir o gesto da criança e indagar: por que esta semana é diferente de todas outras? Agora, é o próprio Cristo que nos envolve e nos conduz, por sua Cruz, na revelação deste mistério. Esta semana é diferente porque traz a mística de nossa vida de fé. É diferente pelas circunstâncias em que a celebraremos mais uma vez. Páscoa é passagem, libertação. E este é também o nosso desejo: passagem do tempo que estamos vivendo, libertação desta grande tribulação.

A memória é fecundada pela escuta, dimensão basilar da comunicação. A leitura de Isaías proclamada no Domingo de Ramos tem um versículo muito convidativo para este exercício. O profeta diz que o senhor o desperta cada manhã e excita o seu ouvido, para prestar atenção como um discípulo (cf. Is 50,4). Assim deve viver o comunicador nos dias da Semana Santa: ter os olhos e os ouvidos abertos para compreender, o coração disponível para rezar cada rito e, a partir daí, transmitir esta transformadora experiência de fé. Tenhamos o cuidado de não fazer o movimento contrário.

Talvez a realidade que estamos contemplando não seja aquela desejada por todos. Não gostaríamos de contemplar um número alto de infectados e mortos pela covid-19, um número ainda baixo de vacinados, um número alto de pessoas circulando. Há um ano estávamos sem entender o porquê tudo isso estava acontecendo e, esperançosos, acreditávamos celebrar este ano com as igrejas repletas de fiéis.

A Páscoa acontece mais uma vez, com aquilo que lhe é peculiar, mas sem aquele ritmo característico. Esta celebração anual, ápice do ano litúrgico e da vida dos crentes, é um convite a mergulhar no dom mais precioso do Pai à humanidade: seu Filho. A contemplação da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo é a consumação da comunicação perfeita de Deus. A Palavra que se fez carne agora se faz silêncio na cruz, no sepulcro e no coração dos discípulos e discípulas, mas não um silêncio vazio. Um silêncio de esperança que ganha fôlego com a luz da Ressurreição.

Ao celebrar a Páscoa, esta semana diferente de todas as outras, somos chamados a exercitar as nossas memórias: de quando estávamos reunidos nos mesmos templos, daquelas pessoas que não estão mais conosco, dos hábitos peculiares de cada comunidade, de cada expressão da piedade popular. É a constituição de nossa identidade eclesial, povo escolhido, povo liberto, povo do Senhor.

Para bem viver este tempo de memória, o comunicador não pode ter medo de olhar e escutar. Olhar para as igrejas vazias, ou com lotação restrita, e escutar o clamor do povo que está em suas igrejas domésticas. Isso ajudará a não fazer da transmissão um ato mecânico. Olhar para a Ceia do Senhor, para o rito do lava-pés que não irá acontecer, e escutar o chamado à diaconia que acontece todo o tempo na vida do cristão. Na Sexta-feira Santa, olhar para a cruz e escutar o grito dos sofredores, dos que estão no território de sua comunidade, de sua paróquia ou diocese e precisam da sua ajuda. Ao olhar para o sepulcro vazio, escutar o vazio dos corações de pais que perderam os filhos, de famílias que foram visitadas pela irmã morte e deixar que a luz da ressurreição invada o mais recôndito de nossas escuridões e nos encha com a luz necessária para anunciar a vitória da vida.

A Páscoa deve ser celebrada como um sopro de esperança. “Quem, com fé, se deixa guiar pelo Espírito Santo, torna-se capaz de discernir em cada evento o que acontece entre Deus e a humanidade, reconhecendo como Ele mesmo, no cenário dramático deste mundo, esteja compondo a trama duma história de salvação. O fio, com que se tece esta história sagrada, é a esperança, e o seu tecedor só pode ser o Espírito Consolador.” (Papa Francisco, Mensagem para o 51º Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2017)

O pasconeiro é um artesão que tem nas mãos o fio da esperança para comunicar a beleza de fazer a memória, a beleza de celebrar a Páscoa. Ele não pode fiar sozinho a história, mas deve estar possuído pela Palavra, pelo Espírito e aí será capaz de contar belas histórias e encontrar as pessoas onde estão e como são. Da ponta dos dedos aos corações, façamos entoar o aleluia pascal. Esta semana será diferente de todas as outras!

Sobre o Autor: Marcus Tullius

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