Na Quarta-feira de Cinzas, dia 2 de março, os católicos e cristãos de outras confissões em todo o mundo iniciaram a Quaresma, tempo litúrgico da Igreja de preparação para a Páscoa, celebração máxima da fé cristã. Desde o século IV, este período de quarenta dias é proposto como um tempo de penitência, renovação e conversão para a toda a Igreja.
O sentido cristão da conversão tem sua base na expressão grega metanoia, que significa transformação, mudança espiritual. Tanto a Sagrada Escritura quanto os primeiros. Para vivenciar com profundidade o processo de conversão quaresmal, a Igreja propõe um caminho baseado em três práticas que se desdobram em muitas outras: o jejum, a oração e a esmola (caridade), que “exprimem a conversão, em relação a si mesmo, a Deus e aos outros”.
ORAÇÃO

O exercício da oração indica todas as formas de relacionamento pessoal com Deus. “Pela oração entramos em comunhão com Deus, diante de quem nos reconhecemos criaturas e filhos”, diz o papa Francisco na homilia da Quarta-feira de cinzas de 2014.
São João Damasceno define a oração como “a elevação da alma para Deus ou o pedido feito a Deus de bens convenientes”.
Os autores de espiritualidade cristã distinguem a oração de diferentes formas. As mais conhecidas são:
Vocal – Aquela que se faz por meio de fórmulas preestabelecidas, tanto longas quanto breves (jaculatórias), tomadas da Sagrada Escritura (o Pai-nosso, a Ave-Maria…), ou da tradição espiritual (Oração ao Espírito Santo, Salve-Rainha, Lembrai-vos…).
Meditação – Ato de orientar o pensamento para Deus e, a partir Dele, dirigir o olhar à própria existência. Nessa forma, põe-se em ação a inteligência, a imaginação, a emoção, o desejo de conversão do coração e a busca da vontade de Deus. Sua principal base está na leitura da Palavra de Deus ou de algum livro espiritual.
Contemplação – Definida pelo Catecismo como o “olhar de fé fito em Jesus”, no silêncio e no amor. Santa Teresa de Jesus descreve esse estágio como “um relacionamento íntimo de amizade em que conversamos muitas vezes a sós com esse Deus por quem nos sabemos amados”. Refere-se, portanto, a um sentido da presença de Deus e do desejo de uma profunda comunhão com Ele.
Tanto a Sagrada Escritura quanto a doutrina da Igreja indicam que, para haver uma autêntica vida de oração, são necessárias algumas disposições:
Recolhimento – Atitude interior e, quando possível, também exterior, de se colocar diante de Deus, em silêncio, evitando outras tarefas e tentando impedir as distrações.
Confiança – Mais do que a certeza de que seu pedido será atendido, significa a atitude de entrega filial daquele que, na alegria e na dor, no trabalho e no descanso, dirige-se com simplicidade e sinceridade ao seu Pai, colocando a vida em suas mãos.
Humildade – É o fundamento da oração e a disposição necessária para receber gratuitamente o dom de Deus.
JEJUM

É chamada de jejum a privação voluntária de comida durante algum tempo por motivo religioso, como ato de culto perante Deus. Na Bíblia, o jejum pode ser sinal de penitência, expiação dos pecados, oração intensa ou vontade firme de conseguir algo.
A prática do jejum era muito presente na primeira comunidade cristã. “Também os Padres da Igreja falam da força do jejum, capaz de impedir o pecado, de reprimir os desejos do ‘velho Adão’, e de abrir no coração daquele que crê o caminho para Deus”, recordou o Papa Bento XVI na mensagem quaresmal de 2009.
São Paulo VI, na Constituição apostólica Paenitemini, de 1966, reconhecia a necessidade de colocar o jejum no contexto do chamado de cada cristão a “não viver mais para si mesmo, mas para aquele que o amou e se entregou a si por ele, e… também a viver pelos irmãos”.
Embora seja uma prática exterior, o jejum impele a pessoa à oração, à escuta de Deus ao exercitar a virtude da temperança, do espírito de sacrifício, do equilíbrio do corpo e da mente, o que leva a uma conversão interior.
Sobriedade – O cardeal Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia, em uma de suas tradicionais pregações quaresmais ao Papa e aos membros da Cúria Romana, recordou que o jejum não se restringe apenas a alimentos. Ele considera a sobriedade, isto é, privar-se voluntariamente de pequenas ou grandes comodidades, daquilo que é inútil e muitas vezes danoso à saúde, também como uma forma de jejum.
O cardeal apontou que os diversos recursos da cultura moderna, como revistas, livros, TV, internet e dispositivos digitais, “invadem” a intimidade do coração, gastando as energias do homem. Cantalamessa sugere a abstinência desses meios, quando usados em excesso. O Pregador apontou também a necessidade de romper com as palavras más, bem como com as palavras que expõem sempre a fraqueza dos irmãos e aquelas que semeiam a discórdia.
CARIDADE

Embora seja uma expressão ampla a prática da caridade no período da Igreja é tradicionalmente conhecida pela expressão esmola. No entanto, a cultura atual acabou atribuindo um sentido, por vezes, pejorativo a essa palavra.
Em uma catequese de 2016, no contexto do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, o papa Francisco recordou que o termo grego do qual deriva a palavra “esmola” (eleemosyne: “piedade, mercê”) também é compreendido como “misericórdia”. “A esmola é um gesto de sincera solicitude por quem se aproxima de nós e nos pede ajuda; esta ajuda não deve ser prestada com alarde para sermos louvados pelos outros, mas no segredo onde só Deus vê e compreende o valor do ato realizado”, acrescentou o pontífice.
Misericórdia – A esmola é portanto, é uma manifestação concreta das obras de misericórdia, isto é, as ações caritativas pelas quais o cristão socorre o próximo em suas necessidades corporais e espirituais.
As obras de misericórdia corporais são: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, dar moradia aos desabrigados, vestir os maltrapilhos, visitar os doentes e prisioneiros, sepultar os mortos. Já instruir, aconselhar, consolar, confortar são obras de misericórdia espirituais, assim como perdoar e suportar com paciência.
Dom de si – A prática da caridade cristã também implica renúncia e abnegação, isto é, dar a vida, dar-se aos outros. São João Paulo II, na carta apostólica Salvifici Doloris, de 1984, apresenta a parábola do bom samaritano como que um paradigma da caridade cristã quando ele põe todo o seu coração sem poupar nada para socorrer o homem ferido à beira da estrada. Em outras palavras, dá a si próprio ao outro. “O homem não pode encontrar a sua própria plenitude a não ser no dom sincero de si mesmo”, diz o Pontífice.
Partilha – A relação entre a esmola e o jejum podem ser percebidas nos costumes de algumas famílias e comunidades que destinam aos mais necessitados aqueles recursos que seriam gastos com os alimentos dos quais se abstiveram durante o período quaresmal. Tais práticas dão um sentido sobrenatural para a solidariedade e um sentido fraterno para a penitência pessoal.
Para reforçar a intrinsica relação entre as práticas penitenciais, São Pedro Crisólogo, no século IV, dizia que “o que a oração pede, o jejum alcança e a misericórdia recebe”.
Dicas para viver a quaresma no dia a dia
1 – Jejum corporal ou externo
- Inclui a abstinência de alguns alimentos, bebidas e outras diversões como a música, as festas, os jogos de azar, etc., especialmente nas sextas-feiras e na Semana Santa.
- Comer menos daquilo que você mais gosta e mais daquilo que não gosta;
- Não comer nada entre as refeições;
- Não utilizar determinados condimentos na comida;
- Não utilizar açúcar ou adoçante nas bebidas;
- Evitar ouvir música todos o dia;
- Optar por leituras espirituais como meditações como a Paixão de Cristo no lugar de entretenimentos como televisão e vídeos;
- Intensificar as práticas cotidianas de oração, como o rosário e a via sacra.
2 – Jejum espiritual ou interior
- Não conversar mais do necessário; em vez disso, repita mentalmente algumas pequenas orações ou versículos bíblicos ao longo do dia o dia;
- Exercitar a paciência em todas as coisas;
- Evitar se queixar ou murmurar;
- Controlar a ira; em vez disso, sugere-se ir ao encontro da pessoa que provocou a irritação;
- Evitar intrigas;
- Quando for pedido algo extra, realize com alegria e boa disposição;
- Evitar ou diminuir o uso do telefone, smartphones, especialmente as redes sociais;
- Sempre falar a verdade em todas as circunstâncias de sua vida;
- Evitar a vaidade e o egoísmo.
- Exercitar a humildade;
- Ser generoso; ajudar a alguém que necessite;
- Observar todas as formas possíveis de ser solidário durante o dia
- Fazer o trabalho que precisa ser feito sem que alguém lhe peça isso
- Evitar a ociosidade;
- Ser sensível às necessidades do próximo;
- Ser voluntário em um trabalho solidário.
- Visitar alguém que está doente.
(Foto de capa: Nicolas BL | cathopic.com)
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