Que comunicador(a) sou eu?

Temos diante de nós uma missão como comunicadores: nunca perder nossas identidades pessoais, profissionais e pastorais

No dia 24 de janeiro, data em que celebramos a memória de São Francisco de Sales, patrono dos comunicadores, jornalistas e escritores, o Papa Leão XIV publicou a sua primeira mensagem, em seu pontificado, para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2026, que será celebrado no dia 17 de maio. 

Com o tema Preservar vozes e rostos humanos, o Papa Leão XIV ressalta a preocupação em sermos autênticos em nossas comunicações, pois “o rosto e a voz são características únicas e distintas de cada pessoa” (Mensagem do 60º DMCS), chamada pelo nome e amada por Deus. 

Portanto, temos o compromisso, como batizados, de ser a representação do rosto de Cristo Ressuscitado nas mídias e redes sociais, sendo comunicadores do “caminho, da verdade e da vida” (Jo 14,6). 

A Inteligência Artificial, em toda a sua magnitude tecnológica, cria situações que confundem e manipulam cenários digitais que parecem reais e acabam prejudicando a vida como um todo, gerando confusões que machucam, enganam e ferem inúmeras pessoas. Porém, a Inteligência Artificial consiste apenas em comandos lógico-matemáticos que seguem a intenção de quem digita um prompt previamente definido; isto é, são seres humanos usando a IA para enganar outros seres humanos. 

Os Dicastérios para a Doutrina da Fé e para a Cultura e a Educação, no Documento 77, Antiqua et Nova, que apresenta uma nota sobre a relação entre a inteligência artificial e a inteligência humana, descrevem a IA como “apenas um reflexo pálido da humanidade” e nos alertam sobre a sua utilização, afirmando: 

“A avaliação moral dessa tecnologia dependerá de como ela é orientada e empregada. Bem ou mal.” 

A preocupação da Igreja não é com a ferramenta em si, mas com quem está à frente dessa tecnologia e com o que está sendo feito a partir dela. 

Assim como o Papa Leão XIV, outros papas também nos alertaram sobre os benefícios e os malefícios do avanço das tecnologias, da ciência, da Inteligência Artificial e da falta de empatia perante esses cenários. São João Paulo II nos disse sobre a ciência, no Jubileu do Bispos, em 2000: 

“A humanidade possui, hoje, instrumentos de força inaudita: pode fazer deste mundo um jardim ou reduzi-lo a um amontoado de ruínas.” 

O Papa Francisco, ao longo de todo o seu pontificado, também externou sua preocupação com o uso das técnicas e a forma de utilizá-las. No item 9 da encíclica Laudato si’, ele ressalta: 

“Devemos encontrar soluções não só na técnica, mas também numa mudança do ser humano.” 

Preservar as vozes e os rostos é reconhecer que cada pessoa possui sua identidade, suas memórias e suas experiências, e que a comunicação verdadeira nasce de toda essa história vivida por cada um. Permitir que as ferramentas de Inteligência Artificial façam tudo em nosso dia a dia, especialmente em nossas comunicações, é renunciar às nossas convicções em nome da agilidade e da redução de trabalho, “enfraquecendo nossas habilidades cognitivas, emocionais e comunicacionais” (60º DMCS). 

Temos diante de nós uma missão como comunicadores: nunca perder nossas identidades pessoais, profissionais e pastorais, permitindo que ferramentas de Inteligência Artificial escrevam nossas histórias. É preciso conservar a capacidade humana de amar e levar esse amor também para a comunicação que geramos, sem perder ou substituir o toque humano. 

Utilizar o que a tecnologia tem de melhor é necessário e indicado, mas não podemos permitir que ela substitua as emoções dos seres humanos, especialmente na comunicação. Precisamos ter consciência de que temos em nossas mãos instrumentos capazes de cultivar a vida ou, dependendo de nossas escolhas, de destruí-la. 

Preservemos nossas vozes e rostos humanos na comunicação! 

 

Por Marcelo Godoy – publicitário, pós-graduado em Comunicação em Redes Sociais, com atuação voltada à comunicação na Igreja Católica. Atua na criação de projetos de comunicação visual e digital para paróquias, comunidades e arqui/dioceses. Vencedor do concurso da CNBB para o cartaz da Campanha da Fraternidade 2012 e do Prêmio de Comunicação da CNBB – Dom Luciano Mendes (2020), com o projeto Bendita Pascom. É coordenador nacional do GT de Produção da Pascom Brasil, membro da Comissão Arquidiocesana da Pascom de Campinas e palestrante em marketing digital para paróquias.