Quando a santidade comunica: o testemunho de São Francisco como inspiração para a Pascom

Francisco de Assis não foi um comunicador no sentido técnico da palavra, ele não escreveu tratados complexos, nem possuía meios sofisticados de difusão

Em cada tempo da história, Deus suscita testemunhas que, com a própria vida, tornam o Evangelho compreensível para todos. Entre essas figuras luminosas da santidade cristã está São Francisco de Assis, um homem que não apenas falou de Deus, mas permitiu que sua vida inteira se tornasse uma mensagem. Neste Ano Franciscano, proclamado pelo Papa Leão XIV como tempo de memória espiritual e renovação missionária para a Igreja, somos convidados a olhar novamente para o testemunho daquele que soube comunicar o Evangelho com simplicidade, ternura e profunda humanidade.

 

A santidade que se torna mensagem

Francisco de Assis não foi um comunicador no sentido técnico da palavra, ele não escreveu tratados complexos, nem possuía meios sofisticados de difusão. Ainda assim, sua vida tornou-se uma das comunicações mais poderosas da história cristã. A razão é simples e profundamente evangélica: Francisco comunicava com a própria existência. Seu modo de viver, de olhar as pessoas, de aproximar-se dos pobres e de falar de Deus tornava visível aquilo que anunciava.

Sua conversão foi, antes de tudo, uma transformação do olhar. Ao abraçar o leproso, aquele homem que a sociedade rejeitava, Francisco experimentou aquilo que ele mesmo falaria mais tarde em seu Testamento: aquilo que antes lhe parecia amargo tornou-se doçura. Nesse encontro nasce um novo modo de comunicar. A comunicação de Francisco não parte da distância, mas da proximidade; não nasce da superioridade, mas da fraternidade; não busca convencer pela força das palavras, mas tocar o coração pela verdade da vida.

Por isso, Francisco passou a chamar todas as criaturas de irmãos e irmãs. Irmão sol, irmã lua, irmãos pássaros, irmãos pobres. Essa linguagem simples, mas profundamente teológica, expressa sua visão do mundo: tudo está ligado pela fraternidade que nasce em Deus. Ele compreendeu que comunicar o Evangelho é, antes de tudo, ajudar as pessoas a reconhecerem-se como irmãos.

Em sua época, marcada por conflitos sociais, guerras e profundas desigualdades, Francisco tornou-se uma presença de paz. Caminhava entre as pessoas com simplicidade, anunciando a alegria do Evangelho. Sua palavra era clara e acessível, mas o que realmente impressionava era a coerência entre aquilo que dizia e aquilo que vivia. Ele comunicava com gestos, com proximidade, com presença. Onde chegava, despertava nas pessoas o desejo de Deus.

 

A comunicação que gera encontro

Essa forma de comunicar continua profundamente atual para a Igreja e, de modo especial, para os agentes da Pastoral da Comunicação. Em um mundo marcado por excesso de informação e por discursos muitas vezes agressivos, o testemunho de São Francisco recorda que a comunicação cristã deve nascer do encontro, da escuta e da fraternidade.

O Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil recorda que comunicar na Igreja significa construir comunhão e favorecer relações que aproximem as pessoas de Deus e entre si. A comunicação eclesial não é apenas transmissão de conteúdos, mas um verdadeiro processo de diálogo, participação e encontro. Essa visão encontra em São Francisco uma expressão viva, porque sua missão sempre foi aproximar, reconciliar e acolher.

 

A comunicação que nasce da vida

A comunicação franciscana é profundamente humana. Ela nasce do contato com a realidade concreta das pessoas. Francisco caminhava pelas cidades e pelos campos, conversava com o povo simples, pregava em linguagem compreensível, rezava com a criação e anunciava a paz como um bem precioso. Ele não separava fé e vida. Sua espiritualidade tornava-se imediatamente comunicativa porque tocava aquilo que há de mais profundo no coração humano: o desejo de amor, de fraternidade e de sentido.

Para os pasconeiros e pasconeiras que hoje servem à Igreja em tantas realidades do Brasil, a figura de São Francisco oferece uma inspiração preciosa. Antes de comunicar eventos, atividades ou notícias, o comunicador cristão é chamado a cultivar um coração fraterno. É esse coração que dá verdade às palavras, humanidade às imagens e credibilidade às mensagens.

 

Um chamado para o nosso tempo

Quando a comunicação nasce da espiritualidade, ela se torna acolhedora. Ela não exclui, não julga, não fere. Ao contrário, abre caminhos para que as pessoas se sintam parte da comunidade. Francisco compreendeu profundamente essa dinâmica. Ele sabia que a primeira linguagem do Evangelho é a fraternidade.

Por isso sua santidade continua fascinando o mundo. Francisco não foi grande porque realizou feitos extraordinários no sentido humano, mas porque permitiu que o Evangelho moldasse sua maneira de viver. Sua pobreza, sua alegria, sua simplicidade e sua proximidade com todos revelavam um coração totalmente configurado a Cristo.

Neste Ano Franciscano, proclamado pelo Papa Leão XIV, a Igreja é convidada a redescobrir esse testemunho que continua tão atual. Para a Pastoral da Comunicação, trata-se de um chamado a redescobrir a dimensão mais profunda do comunicar cristão. Antes da técnica, vem o encontro. Antes das estratégias, vem a fraternidade. Antes das palavras, vem o testemunho.

São Francisco de Assis, irmão dos irmãos, continua ensinando que a comunicação mais verdadeira nasce de uma vida que encontrou Cristo. Quando isso acontece, cada gesto se torna anúncio, cada palavra se torna ponte e cada encontro se transforma em sinal do Reino de Deus.

No testemunho de São Francisco de Assis, a Igreja redescobre que comunicar o Evangelho vai muito além das palavras, dos meios e das estratégias. A verdadeira comunicação cristã nasce de uma vida transformada pelo encontro com Cristo, que se traduz em gestos de fraternidade, simplicidade e acolhimento. Para os pasconeiros e pasconeiras que servem a Igreja nas mais diversas realidades do Brasil, permanece este convite: que nossa comunicação seja sempre sinal de vida, de proximidade e de esperança. Como recorda o Beato Tomás de Celano (Biógrafo de São Francisco) ao contemplar a santidade do pobre de Assis: “Francisco não pregava apenas com palavras, mas com a vida inteira.”

 

 Por Alex Alves Guimarães