
No cenário digital contemporâneo, a Igreja se depara com um dilema que afeta o coração da nossa missão evangelizadora: a tentação de trocar o Encontro pelo Engajamento.
Como agentes da Pastoral da Comunicação (Pascom), somos constantemente bombardeados por métricas, horários de pico e estratégias de retenção, mas, é urgente lembrarmos que a nossa missão não é alimentar máquinas, mas sim pastorear corações.
Papa Francisco, em suas últimas mensagens sobre as comunicações sociais e a Inteligência Artificial, deixou-nos um alerta luminoso: “A comunicação deve ser orientada para a plenitude do humano”. Ele nos ensinou que, por trás de cada “like“, existe um rosto; por trás de cada visualização, existe uma sede de Infinito.
Francisco nos recordava que o algoritmo busca o padrão, a repetição e a polêmica, pois é isso que gera lucro para as grandes plataformas, já a Igreja busca a originalidade, aquela centelha divina que torna cada fiel único e quando focamos apenas no algoritmo, corremos o risco de pasteurizar a nossa fé, tornando-a um “produto” digerível, mas vazio de sustento espiritual.
Em sua Mensagem para o 58º Dia Mundial das Comunicações Sociais, ele nos lembra que “o homem não se torne alimento para os algoritmos”, e que apenas recuperando “uma sabedoria do coração” poderemos ler e interpretar a novidade do nosso tempo e descobrir o caminho de uma comunicação verdadeiramente humana e evangelizadora”
Esse ensinamento nos convida a questionar práticas muito comuns em pastoral digital: postagens que buscam apenas curtidas, conteúdos que repetem tendências sem profundidade ou estratégias voltadas mais para “engajamento” do que para evangelização.
Geração de Conteúdos
A Igreja não nos convida nem a idolatrar a tecnologia nem a rejeitá-la, mas a discernir, à luz do Evangelho, o modo correto e responsável de utilizar cada ferramenta.
São muitas as vozes que nos cercam no ambiente digital, muitas “curadorias de conteúdo”, muitos trending topics e, claro, algoritmos que privilegiam o sensacionalismo e a polarização. Francisco alertava que essas tendências podem diminuir nossas relações humanas a simples interações de tela, reforçando isolamento e desinformação.
E é aí que entramos no coração da missão da PASCOM: não somos chamados a competir com algoritmos, mas a testemunhar a originalidade da fé cristã, nossa voz autêntica deve refletir não o que é popular, mas o que é verdadeiro: Deus nos criou para sermos comunicadores de Sua Palavra, não repetidores de modismos digitais.
Papa Leão XIV tem enfatizado que evangelizar nas redes sociais vai muito além de ganhar seguidores: trata-se de criar encontros entre corações, de buscar aqueles que sofrem e precisam conhecer o Senhor. Ele exorta os missionários digitais a fomentar relações profundas e humanas, e não apenas a produzir conteúdo atraente para as métricas.
Esse olhar é profundamente pastoral: evangelização é encontro, não marketing.
Foi assim com Jesus: Ele não buscou algoritmos ou tendências, mas chamou homens e mulheres pelo nome, sentou-se com eles, curou, ensinou e caminhou lado a lado.
Para nós que fazemos comunicação em paróquias, dioceses, grupos e movimentos, essa mensagem é um chamado à autenticidade.
Sim: podemos usar as redes sociais, mas com propósito evangelizador e não para alimentar vaidades ou disputar visualizações.
Nosso compromisso enquanto comunicadores católicos é revelar rostos e vozes humanizadas, imagens de irmãos e irmãs amados por Deus, e não transformar nossas comunidades eclesiais em meros dados estatísticos nas plataformas digitais.
Vamos juntos ser e ter originalidade?
Que a nossa comunicação pastoral se pareça com o Bom Samaritano, que olha nos olhos, ouve com atenção e age com misericórdia, antes de procurar likes ou métricas.
Que nossas publicações não sejam escritas por algoritmos, mas inspiradas pelo Espírito Santo, que nos guia à verdade plena e à liberdade, que possamos, assim, construir uma presença digital que seja cultura do encontro, celebração da dignidade humana e anúncio da felicidade que só Cristo pode dar.
Que não tenhamos medo de “perder” para os algoritmos se isso significar ganhar em fidelidade ao Evangelho pois a nossa voz não é um eco digital, é o anúncio vivo da Palavra que se fez Carne.
Que o Senhor nos dê a graça de sermos originais, autênticos e, acima de tudo, rostos que refletem a luz de Cristo, para além de qualquer código binário.
Por Ana Corazza
Redação Pascom Brasil
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