
Quando junho chega, ele traz consigo as bandeirinhas coloridas, o cheiro do milho cozido, o som da sanfona e o brilho da fé popular. Nas comunidades, nos bairros, nas praças e, hoje, também nas redes sociais, ecoam os nomes dos três santos juninos mais queridos: Santo Antônio (13), São João Batista (24) e São Pedro (29), acompanhado de São Paulo. Mas, o que essas figuras santas, enraizadas na tradição do povo, têm a nos dizer hoje, sobretudo a nós, comunicadores e missionários digitais?
A resposta está na ponte que une tradição e missão: a santidade como linguagem que comunica o Evangelho. E é nesse campo simbólico e real que a Pastoral da Comunicação (Pascom) e os comunicadores digitais se tornam protagonistas de um tempo novo, sem romper com as raízes.
Santos que comunicam com a vida
Santo Antônio, São João e São Pedro – junto com São Paulo – não são apenas figuras folclóricas enfeitadas pela cultura popular. São testemunhos vivos de um cristianismo encarnado em seu tempo. “A santidade é o rosto mais belo da Igreja” escreveu o Papa Francisco na exortação apostólica Gaudete et Exsultate (n. 9). E os santos juninos não apenas viveram com autenticidade sua fé, mas a comunicaram com audácia e criatividade.
Santo Antônio, com sua linguagem simples e popular, encantava e evangelizava. Foi proclamado Doutor da Igreja por sua sabedoria e clareza na pregação. Um verdadeiro comunicador do Evangelho antes mesmo de existir microfones ou redes sociais. São João Batista, precursor do Cristo, foi a “voz que clama no deserto” (Jo 1,23), chamando à conversão. E São Pedro, o primeiro Papa, tornou-se pedra sobre a qual a Igreja foi edificada (cf. Mt 16,18), sendo um elo de unidade. Já Paulo, incansável missionário, levou a Boa-Nova aos confins do mundo conhecido, escrevendo cartas que hoje são documentos sagrados.
Todos eles foram, à sua maneira, comunicadores. Gritaram, escreveram, ensinaram, testemunharam.
Comunicação: missão e caminho de santidade
“Todo batizado é chamado a ser comunicador da fé”, diz o Catecismo da Igreja Católica (n. 905). Nesse sentido, a Pascom não é um setor da Igreja, mas expressão de sua identidade missionária. Somos chamados a ser ponte entre a fé vivida e a cultura de nosso tempo – e isso inclui a festa, a dança, a comida típica e até a fogueira, quando bem compreendida como símbolo da luz que aponta para o Cristo.
Os santos juninos nos ensinam que a comunicação mais eficaz nasce do testemunho. Santo Antônio cuidava dos pobres, São João denunciava as injustiças, Pedro falava com autoridade sobre Jesus. Nada mais atual, sobretudo em um mundo digital tão cheio de ruídos e superficialidade.
É nesse espaço que surge a figura do missionário digital: aquela pessoa que, movida pela fé, usa a internet como terra de missão. Como dizia Bento XVI, “as redes sociais são agora parte integrante da vida humana” (Mensagem para o 47º Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2013). Nelas, “não basta estar presente, é preciso estar de modo cristão”. Isso implica, portanto, evangelizar com beleza, coerência e profundidade, como fizeram os santos de junho.
Dos arraiais às redes: o desafio da inculturação
A Igreja nos convida constantemente à inculturação da fé, ou seja, ao diálogo fecundo entre o Evangelho e as culturas locais. A Constituição Dogmática Lumen Gentium (n. 50) recorda que a veneração aos santos une a Igreja e inspira os fiéis. Quando celebramos as festas juninas, não estamos apenas repetindo uma tradição popular, mas atualizando, em linguagem simbólica, o legado de homens que viveram com radicalidade o Evangelho.
Quermesses, bandeirolas, fogueiras, simpatias… tudo isso pode ser ocasião de catequese, se for bem conduzido. A Pascom tem um papel essencial nessa mediação: não apenas anunciar os eventos, mas contextualizar sua origem cristã e espiritual. Isso vale para os missionários digitais: é preciso dar um passo além do entretenimento e buscar a formação.
Quantos jovens chegam às festas sem saber quem foi João Batista? Quantos casais acendem uma vela a Santo Antônio sem conhecer sua vida mística e franciscana? O conhecimento transforma a devoção em encontro verdadeiro com Deus.
Comunicação em rede: fogueira que aquece e ilumina
O mundo digital é como uma grande fogueira: pode queimar e ferir, mas também pode aquecer e reunir. Cabe aos cristãos acenderem, nessa imensidão virtual, luzes que indiquem o caminho da verdade e do amor. Isso exige, como diz o Papa Francisco, “um coração que escuta” (Mensagem para o 57º Dia Mundial das Comunicações, 2023), discernimento e paciência.
Os santos juninos, com suas histórias de coragem, renúncia e missão, nos mostram que santidade e comunicação caminham juntas. E essa é uma mensagem forte para os comunicadores católicos de hoje: nossa missão não é apenas informar, mas formar, transformar e testemunhar. Seja por meio de uma transmissão ao vivo, de uma legenda no Instagram, de um texto no site da paróquia ou de um vídeo no TikTok.
A Igreja em festa é uma Igreja em missão
Celebrar os santos juninos é mais do que manter viva uma tradição: é mergulhar na vida de homens que foram verdadeiros comunicadores da fé. E isso nos compromete. Não podemos ser meros espectadores ou replicadores de conteúdo. Somos chamados a ser protagonistas de uma comunicação que cura, educa, liberta e santifica.
Neste mês tão repleto de cores, cantos e sabores, que possamos renovar nossa vocação de discípulos missionários da comunicação, em todas as plataformas e linguagens. Que Santo Antônio nos ensine a escutar e consolar, que São João nos inspire a denunciar e preparar os caminhos do Senhor, e que São Pedro e São Paulo nos motivem a perseverar na fé, mesmo diante das quedas e perseguições.
Como nos lembra a Evangelii Nuntiandi, de São Paulo VI, “O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, dizíamos ainda recentemente a um grupo de leigos, ou então se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas”. (n. 41).
Sejamos, pois, testemunhas que comunicam com alegria, com beleza e com fé, fazendo da Internet uma nova fogueira onde a luz de Cristo nunca se apague.
Por Padre Renan Dantas – Diocese de Juína
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